O conscrito 801

A manobra militar, daquele distante 1974, deixara memórias esparsas, mas profundas, na alma do recruta 801, que servia em um quartel de Infantaria de Jaboatão dos Guararapes. Para sua sorte, ele era da logística, auxiliar de mecânico, e vivia encarapitado naquele velho caminhão REO, herança da 2ª Guerra. Estava entre os chamados “ratos de garagem”, que só davam apoio aos execícios militares. 

Seu grupo chegou primeiro. As tropas de infantaria chegariam depois.

Dois grupos:

Um era o Exército normal, com bandeiras do Brasil na grade do capu das viaturas. O outro trazia um pano vermelho, a indicar que eram os guerrilheiros. 

Nem o recruta 801 nem seus colegas sabiam que, no Norte do país, acontecia uma verdadeira guerrilha. Tudo era abafado pelos oficiais. Os praças participavam do exercício de guerra, alheios a tudo, alienados. Duas realidades paralelas aconteciam ao mesmo tempo. A guerrilha rural, no Araguaia e a guerrilha de treinamento, no sertão nordestino

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… O velho caminhão percorria o leito seco de um rio, como se fosse uma estrada. Léguas e léguas de areia branca e exsicada, lugares ermos da caatinga, sem viva alma. Estavam no sertão do Rio Grande do Norte. No triángulo dos tremores de terra: Pedro Avelino, Santo Antonio e Angicos. Cidades paupérrimas e minúsculas. 

Quando a caravana militar adentrava as ruas de terra, os mais velhos se persignavam e murmuravam, entredentes:

— É a guerra!

— Vosmecês viram os caixões de defunto naquele caminhão?

— É a guerra, num tou dizendo?

O recruta 801 achava graça, naqueles matutos, do alto da boléia do REO. Tudo era novidade para ele, que nada conhecia do mundo. Vivia sua vidinha inocente, pura e besta. Entre os estudos, as peladas de rua e os banhos nos rios da boca da mata do antigo Engenho Curado. Aos sábados, ia à casa da primeira namorada. Ninguém tinha ideia de que havia um regime de exceção. A juventude estava envolvida pelo invólucro da desinformação, urdido pela ditadura. Era o tempo da jovem guarda, do iê-iê-iê, da minissaia… do sarro escondido, no escuro do cinema; a dança na sala… Ninguém desconfiava de nada…

Quando aproximou-se a data do alistamento, o recruta 801 fez uma dieta para emagrecimento. Eram verdadeiros jejuns… Ele estava apavorado com a possibilidade de ingressar nas fileiras do famigerado Regimento de Infantaria. Quem por lá passou, contava das terríveis manobras, dos perigos dos acampamentos, das marchas forçadas; da opressão e do assédio moral nos treinamentos. Era um terror!

Jejum e oração. O jovem recruta era muito religioso. Frequentava as reuniões da mocidade católica e viu os albores do movimento carismático, no Recife. Jejum e oração para escapar do EB. 

Não deu certo!

Foi aprovado nos testes e seu nome apareceu no rol dos conscritos. E lá estava ele. Numa manobra militar, distante de casa, dos livros e da namorada, num lugar inóspito e ermo. Um verdadeiro desertão, como lembra a origem da palavra, sertão.

Sertão do Rio Grande do Norte. Dez longos dias… 

As noites estreladas e muito frias eram regadas à cachaça boa do nordeste. Ele era o encarregado de comprar a pinga, secretamente. No meio da madrugada ia se esgueirando por uma linha do trem, que margeava a cidadezinha. Os bares noturnos também abrigavam a zona. Foi lá que ele ouviu os planos da tropa inimiga, cujos oficiais bebericavam num mesa escondida. Contou ao seu comandante, dia e hora do ataque surpresa, o que lhe trouxe fama e mérito, entre os milicos. 

Mas foi numa daquelas fugidas para comprar cachaça, a pedido do sargento, que ele viveu uma de suas mais dramáticas experiências. 

Foi assim:

Uma prostituta o abordou, quando voltava com a bebida. Sua casinha, ou casebre mesmo, era ali, por trás da linha do trem. Dava tempo para uma rapidinha.

(Bateu saudade da namorada, de seu corpo moreno, das carícias lúbricas, de sábado à noite).

O recruta 801 ainda era virgem. Era um tempo em que se temia transar com a namorada. Dava uma bronca danada! Alguns pais queriam mesmo lavar a honra da filha com sangue. E muitos jovens casavam às pressas, por ter comido o lanche antes do recreio, como se dizia na época. 

O recruta 801 não era muto alto, apenas 1,69m. Mas teve de se abaixar para entrar no mocambo de taipa da velha prostituta. Era uma idosa. A senilidade e as doenças venéreas corroeram seu corpo. E talvez por isso, mas não só por isso, o recruta falhou na hora H. Ficou sensibilizado com aquelas paredes de barro, tisnadas de fumaça do fogão de lenha, as panelas sujas numa bacia de alumínio, espécie de pia improvisada num tripé;  aquela vida miserável e triste, os olhos tristes no corpo cansado daquela mulher, desgastada pelo seu labor noturno e constante. O jovem recruta brochou. A velha meretriz, acostumada com essas coisas, apenas sorriu:

Tem nada não, filho. Nem precisa pagar…

Ele fez questão de pagar. Ela precisava daquela pequena quantia mais do que ele. Era o troco das bebidas. 

Mas aquela noite estrelada e logínqua iria ficar na memória do recruta 801…

A miséria, a solidão, a difícil vida fácil daquela senhora… Era poeta, o nosso recruta. Um dia traduziria aquele momento em um poema, pensava…

***

Dia seguinte, uma missão: iriam buscar o pão para o rancho, numa jipona. Só viajavam de noite e a cidade ficava distante de uma légua dali. Subiu na traseira. Ele e um soldado de outro pelotão, que jamais lembra do nome, mas que iria ficar na sua memória. Negro e magrão, como ele mesmo. Calado e quieto. Talvez sentisse saudade da família. 

A jipona dava solavancos no leito seco do rio, que era a solução para os deslocamentos de sua tropa. Sua viatura tinha a bandeira vermelha dos guerrilheiros, e, na rodovia principal, estavam sempre de tocaia as tropas regulares. A missão era conseguir trazer o pão sem ser pego pelos inimigos.

801 estava cansado da noite passada. Ressacado, seria mais adequado. A viagem parecia interminável. Os catabios não lhe deixavam dormir e o outro soldado, muito calado, olhava as estrelas, distraído. Seria também poeta? Que nada! Poesia não combinava com milicos. Ele sim, desde tenra idade escrevia. Bastava surgir uma menina de tranças, olhos cor de mel e cometia aqueles madrigais adolescentes. 

De repente, uma voz roufenha se ouviu. De onde vinha aqulo? Uma voz distorcida, como de um bêbado. 801 olhou para o soldado e tomou um susto. Ele lhe olhava fixamente, com os olhos revirados. Só se via a bola branca do olho daquele criolo. E, pasmem!, a voz gutural era dele: 

— Ei, você. Você mesmo!

— Quem? Eu?

— Sim, mô fi, eu sou Sete Flechas dos Caminhos, caboclo que vive nessas imensidões da caatinga!

801, que tinha muitos kardecistas na família, mas nunca tinha visto algo parecido, tremeu na base e um arrepio lhe eriçou os cabelos. A entidade, que estava incorporada naquele soldado, lhe disse coisas terríveis. Falou de traição, de futuras decepções com um amigo de infância. E afirmou, peremptoriamente, entre outras coisas, que, naquela noite, sua namorada estava dançando bem agarradinha, com um fulano de tal, que era seu xará. Pior: o caboclo disse que quem casasse com ela, iria descobrir que ela tinha perdido a virgindade.

801 ficou impactado com aquelas revelações. 

Cumprida a missão, a viagem de volta foi normal. O espírito se foi e o outro soldado voltou calado feito um coco. Parecia que nada havia ocorrido.

A manobra acabou. O regimento voltou às bases, em Jaboatão. Em breve viria a baixa do recruta 801, que chegou a ser convidado a engajar e ir servir num posto da fronteira. Nem pensar! Queria mesmo era correr pros braços de sua índia morena!

Daquela manobra, essas duas lembranças lhe acompanhariam por anos: sua primeira vez, com a falha da ereção e a incrível história do soldado manifestado.

É claro que não contaria nada a ninguém. Todos ririam das duas histórias, por motivos diversos. Melhor era esquecer! 

Queria mesmo era dar baixa! Tinha vivido coisas horríveis. Outras memórias muito trágicas ele guardava a sete chaves. Parecia que vivia outra dimensão da realidade. Nas folgas, ia ao cinema com sua índia. E esquecia daquela vida na caserna. Naqueles últimos dias, antes da baixa, teve de ficar guardando um comunista que atirou no quartel. Era um homenzarrão. O recruta 801 mal aguentava o peso do fuzil. O prisioneiro perdia muito sangue por uma perfuração de pistola, à altura da clavícula direita. Ele pedia socorro e gritava por sua mãe. O recruta 801 fingia não ver aquele sofrimento. Duas versões corriam à boca miúda. A dos oficiais era de que ele atirara num sentinela na porta do quartel. 801 ouvira os tiros no meio da madrugada. Vários tiros. Em verdade, todos sabiam que o “comunista” disputava uma empregada doméstica da vila dos oficiais, com o soldado que estava de guarda. Essa disputa terminou em um crime passional. Ele atirou no soldado e foi alvejado em troca. O motivo real era o ciúme. O soldado foi prontamente socorrido para o hospital militar. O “comunista” foi interrogado, sangrou muito. Quando o colocaram na jipona, para ser escoltado para o pronto socorro, não deu tempo. Ele morreu a caminho. 

Essas tristes lembranças eram sigilosas. Ninguém poderia dar a versão do crime passional. Ele era um comunista e atirou na sentinela. E pronto!

Quem iria contar algo diferente?

Quem iria contar do espancamento até a morte de outro comunista?

Esse realmente era comunista, louco ou as duas coisas. Atirou no sentinela de dentro de um fusquinha e gritou palavras de ordem contra a ditadura. Fugiu para a zona chamada de Corrope, num morro das proximidades. Várias viaturas saíram em perseguição. Dizem que o sentinela, um jovem recém-casado, fora atingido na genitália. Uma horda raivosa esperava aquele atirador comunista, no corpo da guarda. Pegaram o louco comunista e o levaram para a pocilga, nos fundos do quartel. Dezenas de soldados o espancaram. Ele não resistiu.

Duas realidades aconteciam ao mesmo tempo. Uma era pública. As festas, a Copa do Mundo, a jovem guarda, o carnaval… A outra, segredo de estado.

Ai de quem comentasse em casa o que ocorria nos quartéis. Era crime contra a segurança nacional. O recruta 801 ficou de bico calado.

***

Depois daquela manobra, os conscritos deram baixa. Relembra que foram todos para um bar por trás do mercado público e grande foi a comemoração.  801 não ficou muito tempo na festa. Queria mesmo era voltar pra casa. E logo partiu.

***

Ao chegar em seu bairro, logo procurou saber dos amigos, sobre aquela estranha noite de sábado, em que esteve viajando. E muitos confirmaram a mensagem do tal caboclo Sete Flechas. Sua índiazinha dançara com o tal xará. 

Seu namoro estava irremediavelmente acabado.

A família da moça, que o tinha na maior conta, implorou para não haver a separação, mas… a desconfiança arruina qualquer relação. Não teve jeito. 801 não suportava a ideia dos chifres. 

Aquela dúvida fatal lhe fez abandonar o seu primeiro amor. 

A vida seguiu. O recruta, muito triste, entrou na lei de crentes. Ele sabia que sua ex-namorada odiava os evangélicos. Nascera no Rio de Janeiro e os seus pais diziam que ela era batizada na Umbanda. Jacidalva, era seu nome de batismo. Seu padrinho… pasmem! era o caboclo Sete Flechas. 

801 encontrou outro amor. Noivou e casou.

Anos depois, em visita ao velho Engenho Curado, procurou saber daquela menina, que parecia uma índia, o seu primeiro amor. Ficou muito surpreso. Ela havia casado com um cara com o seu mesmo nome e apelido. Seu xará, o marido, andava muito injuriado. E a família acusava o pobre 801 de ser o culpado daquele casamento infeliz. Ela era acusada pelo esposo de não ser mais virgem. Chamaram o pobre 801 para uma acareação, na família. Não! Ele jamais faria isso, antes de casar. Era um romântico. Um poeta… Que é que é isso?

Na verdade, aquela notícia abalou os alicerces do recruta. Lembrou da viagem pelo leito seco do rio, em Pedro Avelino. Não podia ser verdade!

Como era possível, um soldado desconhecido, em pleno sertão distante e ermo, saber do que se passava a quilometros de distância?

Coincidência? Acaso? Paranormalidade?

O recruta 801 carregaria essa dúvida atroz, pro resto de sua vida…

No entanto, acreditem: há mais coisas entre o céu e a terra do que suspeita nossa vã filosofia!

 

O velho REO americano, com a faixa vermelha na grade.

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