TEYU’PIOG

Paranormalidade: eis um conceito que foi moda no século passado. Naquela ocasião, todo fenômeno metapsíquico que não tinha explicação científica ou evidência baseada em dados de pesquisa, recebia essa classificação.

Hoje em dia, tais coisas são tão triviais que já possuem o status de… normalidade.

***

Certos fatos ocorridos no velho Caminho de Jaboatão, (no trecho que hoje se chama Rua Falcão de Lacerda e ruas do entorno), e que lhes vou apresentar nessa breve narrativa, podem ser chamados apenas de causos fantásticos, ou, como prefiro, de arranjos fictícios a partir das memórias dos populares.

Mas, e se foi tudo verdade? Afinal, vox populi , vox Dei, né mesmo?

:

Corria o ano de 1959, quando um avião de passageiros caiu na mata fechada perto do morro da Água Milagrosa, no lugar chamado Fazenda Modelo, que pertencia à Escola Rural Alberto Torres, incluída num grande projeto de do ensino de técnicas agrícolas, de inciativa do governo Vargas.

O estrondo da pesada aeronave acordou o povo do lugarejo chamado Pacheco, no meio da madrugada. E muita gente entrou na mata, a ver se encontrava sobreviventes. Em verdade, alguns foram mesmo para procurar objetos de valor. E, de fato, na feira do troca-troca, naquele fim de semana, apareceram relógios Rolex, sapatos bico fino importados, bolsas Pierre Cardin. O povo fez a festa nos despojos do acidente, bem antes da chegada do II Comando Aéreo.

Minha versão é de que foi depois daquele acidente que os tais fenômenos paranormais invadiram as casas humildes do Pacheco. Primeiro, começaram a surgir as rosas-elefante, nome dado pelas crianças àquelas flores enormes, meio azuladas, que nasciam nos terrenos baldios em que se ia bater bola;

A meu ver, essas flores mutantes surgiram mesmo foi na boca da mata, dias depois do acidente, fato que me foi contado com verdadeiro assombro pelos mateiros da área, pelos caçadores e pelos funcionários da Escola Rural. O boato ganhou diversas versões, quando o pânico se espalhou por toda a população.

Uma expedição de biólogos húngaros, liderados pelo prof. Gábor Molnár, veio pesquisar diversas espécies de plantas exóticas em Tejipió.

Os primeiros estudiosos a abordarem aquele estranho fenômeno o definiram com uma nova noção: transformismo fenomênico do Umwelt . Era uma versão extra oficial, trazida por dois biólogos, que, coincidentemente, eram moradores das proximidades. Apontavam para as ideias de um certo Jacob von Uexküll, cientista alemão, precursor das teses da chamada Biossemiótica.

Qual o quê? dizia o povo. E, como em tudo o que era coisa estranha na região, foram consultar o Seu Zé da Bola, vidente muito conhecido da Rua da Esperança, no Barro, famoso por consultar uma bola de cristal e associar a nascente, Umbanda, com algumas práticas orientais.

Zé da Bola ficou assustado com o fato e pediu um tempo para dar um veredicto. O caso carecia de estudos. Qualquer anomalia da natureza deveria ser estudada com seriedade, pois nisso estavam envolvidos os chamados elementais.

Meus pais e meus avós moravam no Pacheco e tudo o que aconteceu naqueles anos eu ouvi deles e dos vizinhos mais velhos.

Uns diziam que nada tinha a ver com o acidente aéreo. E achavam graça disso. As flores surgiram primeiramente no quintal da casa de dona Gertrudes, chamada de Tudinha. Ela era estudiosa de certa Madame Blavatsky e dominava a técnica dos registros akáshicos, etc. etc.

Outros afirmavam que as flores vinham de uma dimensão paralela, o que hoje é explicado pela Física Quântica e tal e coisa…

Mas, o velho Zé da Bola, curandeiro experiente das coisas da vida, já velho, aí pelos anos 1970, me contou uma história bem diferente e simples. Pelo menos, ele achava simples. Tudo aconteceu mesmo na casa de dona Tudinha, mas o fenômeno tinha a ver com a sua neta Mocinha. Contava o saudoso Zé da Bola, que algumas meninas, quando atingem a menarca, abrem o corpo para as forças elementais. Mocinha seria medium e uma falange de pretos velhos, ciganas e caboclos, defensores da Mata Atlântica, tomavam o corpo dela e diversos fenômenos de ordem espiritual aconteciam naquela casa. Disse que o xixi da menina, dias antes da primeira menstruação, adubava o solo, de modo que uma planta exótica, brotava em qualquer recanto onde Mocinha urinasse. Como o banheiro era do lado de fora de casa e não havia saneamento, o terreno ficou encharcado desse adubo espiritual e logo começaram a nascer as rosas-elefante, como se tornariam famosas aquelas flores mutantes.

Eu fiquei pasmo com aquela insólita explicação. Mas considerei a possibilidade de ser verdadeira. É que eu, adolescente curioso, já tinha espreitado a menina Mocinha incorporada. Tinha um amigo que morava na casa vizinha e, pelo muro, podíamos ver o que acontecia. Mocinha baixava um tal de caboclo Papa-mel. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, aquela menina manifestada, a ingerir uma garrafa de cachaça de virada, assim, de vez. Seus olhos ficavam esbugalhados e sua face muito branca, ficava numa vermelhidão de apopléticos. Depois, uma voz roufenha, começava a pedir mel de engenho.

— Mel, mel, caboclo quer mel!

Mas a versão de Seu Zé da Bola estava incompleta. De fato, Mocinha era medium e estava na puberdade. Mas como se explicava o surgimento das flores mutantes na boca da mata. Os agronomos da Escola Rural estavam estupefatos. As margens do rio Tejipió estavam tomadas por enormes rosas esverdeadas, algumas com tons de azul quase cinzento. Mas aqueles biólogos, que citei no começo desse causo, tinham uma explicação científica, que veio à baila nos jornais da cidade. Nos sobradões da Falcão de Lacerda, moravam vários intelectuais, gente graúda, como os jornalistas Guilherme de Araújo e Eustórgio Wanderley. Podem ter sido eles que chamaram a atenção dos redatores da grande imprensa recifense, para os fenômenos paranormais do seu bairro. É aí que entra a explicação mais plausível para o fato:

O Diário da Manhã esclarece que as flores gigantes que apareceram no bairro de Tejipíó, no caminho da Jaboatão, são as Echeveria pulidonis, espécie de planta pertencente à família Crassulaceae, nativa do México. conhecida como Rosa Suculenta. (assinam a matéria os biólogos Luiz Falcão e Célio Sobreira)

Para os céticos, os racionais, os adultos empedernidos, que gostam de estragar uma boa história, essa explicação era suficiente. Não era, no entanto, para mim e minha turma de adolescentes. Fomos fuçar essa história no bairro do Pacheco e lá ouvimos, dentre outras, a versão do místico Elias Guedes, medium independente e estudioso das ervas medicinais e dos conhecimentos milenares dos nossos aborígenes.

Ele nos contou outra coisa, bem distinta de tudo o que havíamos ouvido.

Vocês sabem o que é teyu’piog? perguntou, assim. de repente.

Ahnn???

Vou explicar tudo, disse-nos o Elias, com sua voz afeminada e seu olhar lânguido, encarando aqueles adolescentes curiosos:

Escutem bem:

Havia uma raiz medicinal e alucinógena, usada pelos nossos silvícolas, mormente os que habitavam essa mata do Pacheco, Fazenda Modelo, Engenho Ibura e região. Essa raiz, ao ser mastigada pelo teju, deixava o animalzinho imunizado contra a cobra mais peçonhenta da mata: a pequenina cobra coral. Os índios, sabedores disso, faziam uma infusão, depois de macerar a raiz num pilão de madeira. Essa beberagem lhes abria a consciência e várias entidades elementais se aproximavam e, nas noites de lua cheia, havia um grande toré, dentro da mata. A dança circular e os cânticos abriam outras dimensões de consciência para o povo da floresta.

Vieram os portugueses, aqueles das batalhas contra os holandeses, e destruiram a vegetação nativa, para plantar cana de açúcar. Essa raiz encantada e seu conhecimento desapareceram. No entanto, a tradição era tão forte que o rio que dá nome a essa antiga povoação, chama-se, como todos sabem, Rio Tejipió. Percebem? Teyu’piog, do tupi, raiz dos tejus, virou Tejipió.

Mas o que tudo isso tem a ver com as flores mutantes? perguntei.

Calma, meu jovem!

Aquele avião caiu no lugar em que havia uma clareira ancestral. Era o lugar em que se celebrava o toré com teyu’piog. Essa clareira era um portal cósmico, com o formato de uma flor de oito pétalas, como essa tal de Echeveria. O magnetismo daquele lugar atraiu a aeronave para a queda. A Aeronáutica sabe disso. Eu mesmo procurei os oficiais e contei essa história. Ninguém me deu ouvidos.

As flores, meninos, começaram a surgir nas margens do rio, que atravessa o resto de mata Atlantica, como uma reação da terra ao impacto do avião com o portal do teyu’piog.

E aquela menina, a Mocinha?

Ah, menino curioso…

Mocinha era uma descendente dos caboclos dessa mata. Sua avó era uma índia, criada no sítio Sicupira Torta, ali, já na divisa com Jaboatão. Aquela menina tinha os canais abertos para os elementais. Tratei muito a sua mediunidade desmantelada, aqui no meu terreiro, acreditam? Nem o Dr. Rosa Borges, famoso parapsicólogo, deu jeito em Mocinha. Pois esse vosso amigo, aqui, escondido na rua da Alegria, às margens desse ribeiro Pacheco, pequenino e anônimo, embora em seus tempos áureos era o limite sudoeste da velha Freguesia da Várzea; esse medium tão difamado por essa gente metida à besta, essas beatas da Igreja do Rosário de Tejipió, ajudou a desenvolver a mediunidade de Mocinha. Ela aprendeu a controlar os seus canais mediúnicos, ficou adulta, casou e foi professora primária, aqui mesmo, na rua Olegário Maciel. Acreditam?

***

Acreditam? pergunto eu, aos meus 13 leitores;

Eu também!

Há mais coisas entre o céu e a terra do que suspeita nossa vã filosofia!

Acreditem!

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