MITOPOESE I: o Unicórnio

 
farol recife
…Jaz a Noite Imensa sobre o mangue…
*
A Cidade surge antes,
das enchentes, das vazantes
fundação amorfa, sem face, vazia…
*

A Cidade emerge, ser eqüestre,
Alça as patas, veste a ventania,
Galopa vadia, égua numinosa.

*

A Cidade avança,
Besta airosa,
E aponta para o Atlântico o seu chifre calcário.

*

A Cidade é vária:
Puta dos batavos, marranos, mascates.

Múltipla, mistério:
Vila pescadora com matrizes míticas;
Titãs com tarrafas, jêjes argonautas,
Ninfas pomba-gira, reis iorubás.

*

A Cidade é anfíbia:
Ilhas de enxurradas,
Sertões arribados sobre palafitas.

(ouve-se o relincho de uma gente aflita…)

Antes, muito antes,
A Cidade dá cria (protopoesia?)
Sobre os arrecifes que detém o mar.

*

Vaza a Noite um imenso alfanje:
Ouve-se um vagido.

O sangue, rubro veio, escorre
e tinge o umbigo da pedra
do Reino do Amanhã
*

(ouve-se, em alarido, a turba;

ouve-se um trotar…)
Eurico
1994
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