ZERO IDEIA (um pouco do que não sei…)

Nesses 5 anos em que moro numa comunidade tradicional, dentro do campus da UFPE, notei que jamais aqui vieram alunos de História. Perguntei o porquê disso a uma jovem historiadora, interessada no estudo das mentalidades e que sempre tem paciência com a minha curiosidade. Sua resposta inspirou essa crônica-do-que-não-sei, do que nunca saberei e talvez do que nem precise saber…

Um autodidata, como eu, faz perguntas a esmo, sem noção do que quer aprender. É o meu caso. Minhas perguntas não são pertinentes, por não terem direção, nem sentido.

Portanto, a resposta daquela historiadora, fez um clarão na minha pobre mente.

Zero ideia! disse-me ela, sobre o motivo de não termos visita de historiadores, na comunidade. Zero ideia!

Fiquei uns dias meditando sobre essa expressão tão simples e direta. Vinda de quem vinha, eu tinha certeza da profundidade e da sabedoria da frase. Uma frase lapidar, pensei.

Zero ideia…

Simples como um aforismo, uma verdadeira martelada nietzscheana.

Fiquei atordoado, mas, logo cheguei à conclusão de que ela estava, baseada em seu conhecimento sistematizado e científico, me dizendo que nunca se debruçaria sobre tal assunto, por não ter relevância. Se outros cursos visitam o lugar, faz sentido para eles. Talvez, não faça para a História…

E isso me levou a entender que a busca assistemática que faço em livros, e-books, sítios virtuais, vídeos e outras fontes, físicas ou digitalizadas, de nada vale, se nela não habita um propósito, um fim, um objeto, ou se são assuntos irrelevantes. Claro como a água do pote.

***

Dia desses, decidi afastar-me das redes sociais, redes que nos prendem a atenção, como a peixes numa tarrafa.

Motivo:

O principal, para além de escapar das malhas da rede e de seus algoritmos, era voltar a ler. E ler sobre assuntos que me dão prazer.

Tinha em mãos, O Trato dos Viventes, calhamaço com letras miúdas, escrito pelo historiador Luiz Felipe de Alencastro. Deletei o “zap” e mergulhei naquele livrão, cujo subtítulo é ‘Formação do Brasil no Atlântico Sul”.

Não pretendo fazer aqui uma resenha ou coisa do gênero. Nada disso! Não tenho conhecimento para isso. Zero ideia. Sou um diletante! Já disse e repito. Apenas um amador de ideias, fatos e coisas, como o são os colecionadores em geral. Por falar em colecionador, também me dedico aos arcaísmos e sua etimologia, outro quefazer de pouca, pouquíssima, importância. E, no Trato dos Viventes, há muitas ideias e palavras de um tempo antigo e estranho, que, no entanto, pervive, entranhado no nosso presente histórico, eu diria, na nossa intra-história, ou seja, no presente não-histórico, como asseverava Dom Miguel de Unamuno y Jugo.

Por serem relatos desse tempo avoengo, pode ser que eu vá cometer algum anacronismo, que espero, possam meus 13 leitores perdoar.

À página 274, do livro supracitado, como sói acontecer em minhas leituras de autodidata, eis que me deparo com um personagem da história da comunidade em que vivo. Não só um, mas alguns…

João Fernandes Vieira é o personagem que nomeia o capítulo que começa nessa página 274 e segue por diversas outras, em que se narra uma pequena epopeia em África, pelos idos de 1655-57. História feliz para os invasores portugueses e desditosa, para não dizer trágica, para os angolanos.

Fernandes Vieira, logo depois de vencer as batalhas de restauração do domínio português sobre as terras de Pernambuco, se fez ao mar, a propósito de servir ao rei como governador, em São Paulo de Luanda. Com ele, em dado momento do relato, aparecem os mestres de campo, Henrique Dias, com seu terço de homens negros e André Vidal de Negreiros, seu compadre e vizinho. Juntos, atacam as pequenas nações de Angola, aprisionam seus soberanos, dentre eles, a famosa rainha N’zinga e, por fim, vencem e degolam o Rei do Congo.

Vitoriosos, começam a empreitada subjacente ao domínio sobre o território de Angola e seu verdadeiro propósito: escravizar pessoas, para serem vendidas no Brasil. Esse comércio nefando, que era legalizado em nossa terra, é o que fez a riqueza imensa desses mercenários brasílicos, em viagens sucessivas pelo Atlântico Sul. Diz o autor de O Trato dos Viventes, que no Brasil, excetuado o ouro das Minas Gerais, o que fez a riqueza dos grandes latifundiários, não foi o açúcar, nem o café, mas o tráfico de escravos.

Portanto, o monumento a Fernandes Vieira, que está erguido nas cercanias da comunidade onde moro, não exalta um grande senhor de engenho, mas um traficante de pessoas escravizadas. Lembro com que orgulho os militares o saudavam nos dias de celebração das Batalhas dos Guararapes, hasteando a Bandeira Nacional, com aquele ufanismo próprio das gentes fardadas. Lembro que até então não fazia ideia, zero ideia, de quem era louvado, naquele monumento.

Agora eu sei!

Era um mercenário, a serviço dos escravocratas, em África. Um preposto da coroa portuguesa, que, pasmem, usava a cruz de Cristo, como pretexto para arrastar milhares de angolanos, para o exílio e trabalho compulsório, em terras brasílicas.

Isso me dá nojo! Um nojo que pode até ser anacrônico, mas é verdadeiro, para mim, que não fazia ideia, zero ideia, desses fatos.

Os abomináveis navios negreiros, que cruzavam o oceano Atlântico, sempre com vento de popa, tinham a proteção misericordiosa de Nossa Senhora do Rosário e a permissão de Deus, representada por um anticiclone que empuxava as suas velas, em direção de Luanda, contornando a Ilha de Santa Helena. Os bons ventos sopravam naquela direção, para tristeza dos povos de Angola. E por isso, talvez, que durante o século XIX, um famoso balneário ao sul do Recife, recebeu o nome de Porto de Galinhas. Seriam as galinhas d’Angola? Disso não sei. Zero ideia!

A proteção de Nossa Senhora do Rosário, a essa navegação negreira, está descrita no Sermão XXVII, do padre Antônio Vieira, que se pode ler, à página 63, de O Trato dos Viventes. Nessa página também se louva a permissão de Deus, exaltada por Vieira, em pregação memorável, in, Sermões, vol. IV, p. 1205, que se pode acessar na busca do Google.

Decerto o padre Vieira, quando fazia o seu Sermão XXVII, em que exortava à resignação os escravos, do alto do púlpito de uma igreja dedicada à Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, estava no estranho contexto daquela terrível quadra do século XVII. Anacronismo, o que escrevo então?

Não sei. Zero ideia!

No entanto, eu sempre fiquei curioso com a quantidade de templos católicos sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, em diversas freguesias do Recife. Mormente, as duas igrejas que foram edificadas no bairro da Várzea; uma, dos Homens Brancos e, outra, dos Homens Pretos (que foi misteriosamente, demolida); e aqueloutra, erguida em Tejipió, onde, inclusivamente, fui batizado, em 1955. Nesta última, uma placa registra o sepultamento dos restos mortais de alguns filhos pequenos do traficante, João Fernandes Vieira, que possuía um sítio, hoje bairro, de nome, Sicupira Torta, nas cercanias da igreja do Rosário de Tejipíó.

João Fernandes Vieira, latifundiário e escravocrata, irascível senhor de engenho e mercenário a serviço da Coroa e de si mesmo, posto que mandou construir, às suas expensas, uma caravela para o comércio negreiro, num estaleiro da Bahia. Não era o açúcar, a base de sua imensa riqueza, mas, o tráfico das gentes de Angola.

E eu, ingenuamente, fazia trilhas pelo velho caminho colonial da Várzea, em que apresentava o João, apenas como latifundiário e dono de escravos. A verdade é que ele era um grande traficante de pessoas, que ele mesmo ia buscar em África.

E o caminho da Várzea, esconde, sob nossos pés, aterrados por 395 anos de história oficial, as gotas de sangue, que respingaram das costas de milhares de homens e mulheres, trazidos à força, para serem vendidos aos senhores da Várzea do Capibaribe. Essa Várzea que hoje ostenta, na arquitetura de seus templos centenários, a ilusória face de um Brasil açucareiro e próspero.

Não! Mil vezes, não!

A face da Várzea, que ora vejo, é a dos descendentes dos terços de negros e índios, forçados a lutar nas batalhas dos senhores de engenho, endividados com a Holanda; é a face encovada das amas de leite, em cujos peitos sugaram os pequenos senhores, leite negado aos filhos de África. Eis a face triste de uma Várzea que se orgulha de um passado lamentável, por não fazer ideia do que desconhece, zero ideia… ou por negar essa verdade.

Já não vejo apenas um caminho colonial, que cruza o campus da UFPE, e, sim, uma via dolorosa, em que se arrastaram meus irmãos de Angola, de Daomé, de Benim, de Benguela e do Congo.

E já não posso ver as rosas do Rosário da Várzea, sem que me lembre desse sangue, rubro veio, que agora, inunda toda a paisagem à minha volta. Sangue de uma África ancestral, que corre em minhas veias e dói fundo, muito fundo, na minha pobre alma…

E o pior disso tudo é que eu não fazia ideia dessas coisas, até agora. Zero ideia. E creio que muitos não sabem, como eu.

Preciso, então, terminar a leitura esclarecedora de, O Trato dos Viventes.

Saúde a todos e a todas!

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