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“A Amazônia produz 20% da água doce do planeta. O biólogo Antonio Nobre informa que todos os dias o bioma lança na atmosfera, via transpiração das árvores, uma quantidade maior de água do que a do Rio Amazonas. A usina de Itaipu precisaria operar na potência máxima durante 145 anos para conseguir evaporar o mesmo volume de água que a floresta exala em 24 horas. “Uma só árvore na Amazônia com uma copa de 10 a 20 metros de altura bombeia cerca de 600 a mil litros de água por dia para a atmosfera”, explica o físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em entrevista ao Globo. É chuva que cairá Brasil afora.” Fonte: Revista Piauí, João Moreira Sales
Chegam-me, pelo Youtube, as Ideias para adiar o fim do mundo, do pensador indígena, Ailton Krenak. Ouvi-lo me fez tremer nas bases. Ele não disse, em seu vídeo, essa expressão: “sociedade necrófila”. Mas é disso que se trata e que eu já ouvia, frequentemente, desde os anos 1987, 1990, em conversas com o artista plástico, Fernando Serpa, em nossas incursões pelo ateliê do amigo Eugênio Paxelly, na Rua Leão Coroado, bairro da Boa Vista.
Somos nós, minha gente, os necrófilos dessa sociedade. E nos jogam dentro das escolas, das universidades, para repetir comportamentos necrófilos, daqueles que, cinicamente, devoram o planeta, para transformá-lo em mercadoria e depois, em lixo insepulto.
Os indígenas dizem que somos os devoradores da mãe-terra. Com ela, fabricamos tudo o que nos disseram que necessitamos. Em suma, nossas necessidades são inculcadas em nossas mentes, através da educação para o consumo, que é o que nos ensinam desde crianças.
Nossos hábitos são destruidores. E nessa batida, destruiremos nossa casa comum, como diz Krenak, e todos morreremos juntos, seja humano, bicho ou coisa.
É nesse momento da história que assume um vampiro, um devorador assumido do planeta, o inominável Messias do ódio, com um séquito de adoradores de Mamom, seu deus invisível, cuja mão podre destrói tudo o que toca.
Onde se leu, Mamom, leia-se, Sistema Financeiro Especulativo Mundial.
Com a chegada do Inominável e seu sinistro da Economia, estava implantado o reino do mal sobre a natureza.
É bem verdade que, desde 1995, o Brasil já abrira um imenso duto para as oferendas a Mamom. O Banco Central estava obrigado por lei a comprar toda a sobra diária dos bancos e transformá-la em títulos da dívida pública, uma espécie de promissória, que, dia após dia, transforma a bóia diária dos bancos brasileiros, em uma bola de neve de juros sobre juros. E quem paga tudo isso?
Nós, os contribuintes.
Porém, os olhos ávidos do inominável Messias estavam voltados para a floresta amazônica. Desde jovem, mesmo servindo ao Exército, ele se fez garimpeiro, às escondidas, durante uma manobra de instrução militar, no norte do Brasil. Desde jovem, ele sonha com os minérios sob a imensa floresta.
As jazidas estão sob as árvores. Mas, que importa. Cortem-se as árvores! Liberem-se as madereiras ilegais. Nada de multas! O Brasil, pensa ele, precisa enriquecer. E a Amazônia brasileira é um tesouro inexplorado.
O mito do Eldorado habita a mente voraz do Inominável Messias.
Os especuladores financeiros internacionais estão muito felizes. A bóia diária continua sendo comprada pelo Banco Central, que agora vai ter legalizada a sua autonomia para agir. Um Banco Central independente é o sonho desses banqueiros e um louvor a Mamom.
Mas, a Amazônia abastece de chuvas o Brasil, dizem os cientistas. Uma única árvore de 10 metros de altura bombeia para a atmosfera, milhares de litros de água. A floresta transpira rios suspensos no céu. Todo o regime de chuvas do sudese depende da floresta amazônica.
Calem-se, os cientistas! berra o inominável Messias!
E demite os cientistas, defensores da floresta. E processa jornalistas que divulgam essas coisas.
Em sua defesa, acorrem milhares de cristãos acéfalos, de milicos lesa-pátria, uma manada dos infernos, cujo tropel se ouve por todo o país.
Assim, com a força das orações e das armas, segue o Inominável Messias, assustando as espécies em extinção, avermelhando com mercúrio a água limpa dos grandes rios, levando nuvens cinzentas sobre o sudeste e devorando o futuro das nossas crianças, como afirma o guerreiro Ailton, do povo Krenak.
Eu, cá do meu cantinho de escrevinha/dor, desperto do sonho de cronista diletante, como quem sai da caverna para ver a luz. E me deparo com a angústia secular dos povos originários, dos quilombolas, dos que defendem a terra, por ser dela filhos e ela, mãe amorosa…
Eis que, em iluminação subitânea, me pego a maquiar a história do lugarejo onde resido e que também sucumbe diante da insolente maneira de viver dos desenvolvimentistas, dos deformadores de mentes, que cuidam da educação “superior” da juventude brasileira.
Aqui, onde moro, havia um resquício da Mata Atlântica, em que agora está um imenso estacionamento para que os “bem de vida” deixem seus carros, enquanto vão assistir o seu cantor preferido. É a carrocracia, como bem me diz meu filho, que é ciclista, nessa cidade de trânsito perigoso. Somos nós, com nosso hábitos seculares de um mundo capitalista e perverso, esses exterminadores do futuro das novas geerações.
Concluo esse desabafo, dizendo que estamos todos no mesmo planeta. E que não adianta nenhum progresso que se diga sustentável, pois o sistema destruidor já alcançou o limiar da morte do planeta. Desfrutemos, com frugalidade, do resto de vida saudável e amorosa que pudermos. Façamos a nossa parte, como o beija-flor que tentava apagar o incêndio na floresta, levando gotas d’água em seu bico. Perseverar na vida é a nossa única alternativa. Como dizia Benedito Espinoza, “o ser quer perseverar em ser.”
Abraços, derradeiros navegantes desse planeta azul!
