Viés, vieses: do olhar e dos olhares

Aposento-me em 2021. Encerro mais um ciclo.

Agora, como acontecia na adolescência, terei mais tempo para me deter sobre as coisas e observá-las com vagar, entretanto, com aquele olhar inquieto, de quem quer encontrar caminhos novos, mudar o mundo… Talvez, sem aquela saborosa irresponsabilidade dos jovens, mas, com o mesmo tempo livre, a mesma mente ociosa. Uma adolescência dotada de uma novidade:

O$ provento$…

Observar o mundo é isso: olhar em volta, o entorno, a circum-stantia.

No entanto, um olhar tem vieses, tendências, obliquidades.

Como sabem, meus 13 leitores, sou um bibliodidata, ou autodidata, como queiram. Devo aos livros o pouco do que enxergo para além do meu nariz. Um mundo com viés, com vieses, no mais das vezes, bibliográficos.

Dito isto, deixem-me descrever o que via e o que vejo, do meu entorno, como sempre, pelas lentes de minhas leituras.

(Porém, nem só de leituras vive um autodidata moderno. Agora temos o Youtube, o Google, a internet, né, mesmo?)

Depois de ler o ensaio famoso de Chico de Oliveira, chamado de O Ornitorrinco, e, em seguida, assistir ao programa Roda Viva, que lhe fez uma magistral entrevista, passei a enxergar o Brasil dos desalentados, que, mesmo sem emprego certo, são aproveitados pela nova economia digitalizada. Foi assim que escrevi o texto A Avon dos Miseráveis, no meu antigo blog.

Agora, pelo youtube, me deparo com um outro olhar sobre o Brasil profundo:

Eis, Jorge Caldeira, com sua leitura renovadora, da economia do Brasil colônia, a partir do trabalhador comum, naquilo que se convencionou como sendo “uma economia de subsistência”.

A releitura historiográfica do Caldeira me fez olhar para o espaço geográfico historicizado que me rodeia: o campus da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, em que está enclavada a comunidade centenária onde resido.

Economia de subsistência…

A expressão me remete às lavouras imensas que existiam nas terras da extinta Usina Meio da Várzea S. A., onde seriam erguidos os prédios da UFPE.

Por exemplo: a quadra em que foi erguida a Faculdade de Economia, por um dessas ironias, era a plantação da família de Seu Amaro Sebastião, agricultor que enriqueceu vendendo hortaliças para a CEASA. Eu disse, enriqueceu! Portanto, não era apenas de “subsistência” a sua agricultura.

E é disso que trata o Jorge Caldeira, em seus escritos. Segundo ele, dados estatísticos recentes demonstram que o Brasil tinha um mercado interno mais lucrativo do que o mercado de exportação, contrariando, com números, a ideia de um país de economia meramente extrativista e exportadora. Isso gera um novo olhar sobre a Economia, e, talvez até, uma nova forma de contar a história do Brasil. Emerge de suas descobertas esse olhar, esse viés, que trago agora sobre a lavoura de Seu Amaro Sebastião e, não apenas a dele, mas a de dezenas de agricultores do campus.

Havia nesse quadrilátero irregular, que hoje abriga a UFPE, uma intensa vida cultural, uma economia pujante, que se pode avaliar ouvindo os filhos e netos dos ex-moradores do Engenho Velho. Em sua memória afetiva, eles guardam lembranças de anos e anos de trabalho infantil na agricultura familiar. Contam da chegada e partida de caminhões carregados de hortifrutigranjeiros, que eram vendidos nos galpões da nova CEASA. Nada lhes faltava e a vida era muito saudável. Comiam do que plantavam: feijão, milhos, batatas e macaxeira. Por falar nisso, toda a quadra que hoje abriga o Centro de Convenções e a Concha Acústica era a plantação de macaxeira de Seu Pedro, que, segundo contam, era a preferida dos Brennand, por sua qualidade.

Essa vida rurbana tinha toda uma cultura popular, com festividades diversas, profanas e religiosas, desde a queima da Lapinha, passando pelas sambadas juninas, até o fandango dedicado a São Sebastião, promovidas pelas famílias dos lavradores.

Seria de bom alvitre rever essas memórias relatadas pelos remanescentes daquelas pessoas que aqui viveram, desde 1870, pelo menos, para recontarmos essa história escondida no campus, sob outro viés, desmistificando a ideia de que a chegada da UFPE veio trazer progresso para uma área quase desabitada e paupérrima. Nada mais falso, quando se ouvem as memórias dessa gente do velho Engenho, que existiu às margens do Cavouco.

É preciso olhar com outros olhos.

É preciso ver com vieses e não só um viés.

É isso…

 

 

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