O Inescrito (ufos no Cocuruto)

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“No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora dum disco voador…” (Raul Seixas)

Ufo no Cocuruto

Ï(((

Por um tempo, o Sítio do Cocuruto passou a ser local de observação das estrelas. Naquela época triste, havia um receio de sermos denunciados aos milicos, pois o país estava sob o AI-5. Apesar disso, Pai Ulisses nos acalmava:

Ï

Aqui, nada fazemos contra o governo. Eles têm estrelas no ombro. Mas as nossas estão acima deles…

Numa daquelas semanas, o grupo de observadores teria duas surpresas. Uma boa e outra ruim.

A primeira se deu numa Lua Nova de verão. Céu estrelado e silencioso. O silêncio  era tanto, que dava pra ouvir as mães, do outro lado do vale de Seu Noé, chamando as crianças pra dentro de casa. Afinal, estávamos sob toque de recolher. Eu mesmo, certa noite, dedilhava o violão na esquina da Rua Ipitanga, quando um jipe do Exército me mandou entrar em casa.

***

Ï(((

Naquela noite sem Lua, uma ventania estranha, vinda do leste, trazia uma grande nuvem. Os fenômenos que lhes passo a contar foram testemunhados pelos casais, Pai Ulisses e Dona Maria, eu e minha Marluce; e mais uns dez novos adeptos das reuniões do OCCPI –  Observadores do Céu e das Coisas Possíveis e Imagináveis:

1 Que dentro daquela nuvem, havia um remoinho brilhante, feito labaredas de fogo. E dentro dele uma coisa redonda, da cor de âmbar.

A coisa redonda

Pai Ulisses viu que estávamos assustados e pediu calma.

Aquilo parecia uma nave espacial.

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2 Daquela roda brilhante saem quatro seres, cada um tinha quatro rostos.

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3 E as suas pernas eram zambetas e finas, como de gafanhotos.

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3 E tinham braços humanos, colados debaixo das suas asas.

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4  E os seus pés eram pés esquerdos; e as plantas dos seus pés como a planta do pé de um touro, e brilhavam como brilha um metal polido.

***

Ï(((

Estávamos todos entretidos, a olhar o objeto flutuando no céu, quando os faróis de uma Veraneio iluminaram o acesso ao terreiro de Pai Ulisses.

(… a máquina voadora apagou todas as suas luzes, e num piscar de olhos, sumiu na escuridão da noite…)

O ufo sumiu na noite escura

A segunda surpresa

Um agente desceu da viatura, e saudou o Pai Ulisses,  com uma cordialidade incomum, naqueles anos de chumbo.

Seu Ulisses, o senhor foi denunciado por subversão. Assine aqui, por gentileza. E compareça hoje, ainda, na Delegacia de Teyu’piog.

Era o guarda Wilson, vizinho de rua do terreiro. Eis a razão da falsa cordialidade.

Eu num sei assinar!

Alguém aqui sabe ler? Ninguém?

Mas, essa reunião está proibida! Vamos dispersar!

Seu Ulisses, embarque na viatura comigo, que na Delegacia tem como assinar com o polegar. Depois mando algum agente lhe trazer até aqui.

Ï(((

Uma reflexão no tempo presente, cujas causas estão nesse passado de repressão:

[…hoje, o “irmão ” da água mineral me disse que Deus fala nos trovões. E citou Moisés no Sinai. Que o grande trovão da noite passada foi um aviso pro Brasil se converter ao evangelho.

Eu fiquei pasmo! O pensamento uniprismatista vai avançando no Brasil. O evangelho da prosperidade agora quer o poder político.

Temo, sinceramente, pelo fim do estado laico…]

&&&

Ele, o irmão da água, também me disse:

lá na Igreja Assembléia da Purificação, segundo o nosso pastor, não há pessoas pardas nem pretas. Todos são iguais diante de Deus.

(Purificar a raça, é o que se esconde sob essa denominação. A purificação, portanto, não é nome de alguma santa ou liturgia batismal.

É eugenia, simples assim.)

***

Na Delegacia:

O senhor sabe quem lhe denunciou?

Sei não,  senhor!

Vou lhe dizer, porque não gosto de crentes… e porque um tal de Seu Baixa ligou pra meu superior, na regional do Cordeiro:

Foi um diácono lá da Vila La Roque.

Mas o senhor tem sorte. O delegado é da Irmandade do Santissimo Sacramento e odeia mais os protestantes do que os comunistas. Mandou lhe soltar.

***

Nem bem o Pai Ulisses regressou e o objeto voador iluminou a madrugada escura do Sítio do Cocuruto. Dou o meu testemunho. Meninos, eu vi!

Nota do Autor:

Abaixo segue uma sinalética p/roteirizar, ainda em fase de construção, ou seja, um experimento gráfico da formatação de roteiros:

Ï = personagem

>Ï< = locação de cena no interior

Ï<>Ï = locação de cena no exterior

Ï((( =narrador (voz em off)

)Ï Ï( = diálogo

(Ï) = monólogo interior, voz ou canto em uníssono e solilóquio.

[“txt“] = texto na tela

[ * ] = imagem na tela

Transições: (opcionais)

*** = corta para

…<— = fade in

(aparecimento gradual)

—>… = fade out

(desaparecimento gradual)

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