Várzea, a nova

Quem não viveu a velha Várzea, não percebe a nova. Falta-lhes o contraste necessário a essa percepção. E não lhes vou falar das torres de concreto armado que surgem na paisagem. Nem lhes falo, com o costumeiro saudosismo das gerações passadas:

Bons tempos…

Até porque, de certo modo não eram bons os tempos da minha geração. Sob a égide dos militares direitistas, nada poderia ser bom. Por isso, quero lhes falar do novo, a partir da mentalidade que surgiu nos dias de hoje.

Cito o exemplo do José Fernando, ou seja, do mestre Zé Lasca Vara e o coco que roda. Esse mestre eu conheci no ostracismo, há uma década atrás. Porém, hoje, prestes a ser reconhecido como patrimônio cultural, pelas autoridades pernambucanas, o vemos rodeado por uma juventude criativa, inteligente e engajada (palavra antiga, mas que vem a calhar nessa frase); juventude essa que tomou posse do quintal do nosso querido Zé Fernando, na rua das Laranjeiras e está desenvolvendo um belo trabalho comunitário, no melhor sentido da palavra.

O que mudou em uma década?

Vejamos:

A minha geração era esquisita. Fazia a luta política, era progressista, mas, no âmbito da cultura popular era preconceituosa e egocêntrica. Havia uma verdadeira “reserva de mercado” para os artistas e fazedores de cultura da Várzea, em detrimento dos outros bairros, isto é, artistas de fora não eram bem-vindos no território.

Essa postura gerava incidentes e dissidentes que não precisam ser detalhados nessa crônica da boa idade. Eu fui morar no Arruado do Engenho Velho durante uma celeuma do velho Movimento Cultural da Várzea, coisa tola, sobre a formalização do MCV, em pessoa jurídica ou não. De lá vi o fenecer do Movimento enquanto instituição, o que de fato paralisa e não faz “movimento” algum avançar.

Dito isto, e para não passar por saudosista, o que de fato não sou, vou falar do novo, do agora.

Ao morar quase dez anos ali, no Engenho Velho da Várzea, pude ter o distanciamento necessário para observar a mudança que ocorria nas cabeças pensantes varzeanas. E como mudou a mentalidade dos artistas e mestres desse subúrbio cult/rural, que é como costumo chamar o arrabalde da Várzea do Capibaribe. (Em outra crônica, discorrerei sobre esse novo conceito, com que tento definir a psicosfera do bairro mais intensamente movido por saberes e fazeres artísticos, em linha reta do planeta.)

E o que é novo na Várzea, parece tautológico, é a juventude. Uma juventude altruísta, inteligente e criativa, sem os preconceitos de antigamente. Uma juventude acolhedora dos forasteiros, hospitaleira e sem frescuras. Essa mentalidade no bairro é a novidade alvissareira. Uma nova Várzea vem surgindo nos últimos anos, com a abertura para a convivência fraterna entre todos, inclusive, abertos para a velha guarda. Essa Várzea que encontrei nesses quase dois anos em que voltei a morar no seu sítio urbano, é a Várzea que respira um novo tempo: agroecologia, novos brincantes populares, gente nova chegando, a proximidade com a UFPE gerando novos frutos, com a rua da Feira exercendo o seu papel de rua extensionista, ganhando o status de rua universitária, que, no dizer do Mestre Zé Lasca Vara, é a Universidade Popular da Rua da Feira. Ele, o mestre Zé, que simboliza esse novo tempo da nova Várzea, saborosa, fecunda, prolífica e, finalmente, acolhedora e amorosa com todos e todas.

É a juventude varzeana que faz dessa velha Várzea, a nova. E nós, da minha geração, devemos incentivar essas boas práticas de convivência surgidas, dos jovens da Pandeirada, do Coco de Quinta e de outros brincantes.

Salve Well, da Rádio Magitot e Salvemos o Casarão da Várzea!

Salve, Anax, filósofo do coco!

Salve, Bruna Kitazono, jovem presidenta da AMV ´Associação de Moradores da Várzea!

Salve, Cuquinha, e suas lições de ritmos da música popular nordestina!

E, pra não me estender, salve o Mestre Fernandão, o Zé Lasca Vara, que a todos acolhe em seu quintal cult/rural, ali, na velha rua das Laranjeiras, que nunca será Rua Dr. Fulano de Tal.

Abraço em todes!

Ass.:

Seu Lula do Arruado

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