
Ï((( Fim de tarde em Olinda, De minha varanda vejo o arvoredo do morro da Sé. As aves se recolhem aos seus ninhos, nas copas altas e frondosas. A noite vai chegando mansamente e as lâmpadas se acendem, uma após a outra. Ouço um bater de asas diferente. De repente, um mocho miudinho voeja sobre as minhas samambaias. Parece-me familiar:
— Boa noite, Seu Lula, o senhor me dá licença!
— Boa noite! Quem é você?
— Meu nome é Gláucio, em verdade é Glaucidium, mas me chamam, Gláucio, por ser mais fácil de pronunciar. Os mais íntimos me chamam, Caburé. Essa alcunha vem de longe, lá de meus ancestrais!
— Pode se chegar, Gláucio! Você me lembra demais, uma professora, chamada Miúda, que conheci, meses atrás, lá na serra da Báçira.
.– Sim, a professora Miúda, minha prima Seu nome verdadeiro é Gláucia. pois pertencemos à mesma família de corujas e, infelizmente, estamos em extinção. Eu sou o derradeiro de minha espécie. Gláucia é a Glaucidium Brasilianum, ou caburé-miudinha, por isso, o apelido. E eu sou Glaucidium Minutissimum, ou seja, menor ainda. Se o senhor se lembra, ela possui estrias na testa, semblante de pensadora, sempre séria e preocupada. Enquanto eu tenho essas pintas aqui!
Ï((( Dizia isso e me mostrava o cocuruto. Era um pequenino mocho, muito expedito e bem falante.
— E o que o trouxe até aqui, Gláucio?
— O senhor tem tempo para ouvir minha história? perguntou, enquanto fazia um suave pouso, no espaldar de minha espreguiçadeira.
— Sou todo ouvidos! respondi, morrendo de curiosidade, que é um de meus piores vícios.
Ï((( Gláucio me encarou com seus dois grandes olhos e me contou suas venturas e desventuras.
[“txt”]
Gláucio, o derradeiro
ou os Caburés da Báçira
(continua na postagem seguinte…)
—>…