Não ficou cego em tenra idade. Tudo começou aos 18 anos. Foi um processo lento. Muito lento mesmo… Deu até tempo de se apaixonar. A sua deficiência visual lhe fez amante das lentes polidas, das lupas, dos microscópios, dos telescópios. Um amador das estrelas e das coisas minúsculas. Aprendeu cedo que ver é mais do que enxergar.
Sua primeira grande paixão foi uma delicada flor amarela. Deu-lhe um curioso nome: Belbellita.
Aproximava a lupa da corola, das pétalas, dos delicados pistilos, do gineceu. Soprava os pequenos insetos, que fugiam contrariados e não admitia as investidas dos colibris, que lhe provocavam crises de ciúme.
Certa manhã, com um par de binóculos, flagrou, da janela de seu quarto, a sua flor a se abrir, inteira e despudoradamente, para um intruso beija-flor. Descobriu que amar é sofrer. E amuou-se.
Desde então, dedicou-se aos astros. Amou, então, Alcíone, um amor platônico e impossível. Erguia a luneta para o Sete-Estrelo, com um vigor masculino, quase sensual. Mas, Alcíone era azuladamente bela, fria e distante e não acedia em jogar seus jogos amorosos. Varava, então, as madrugadas em deslumbramentos onanistas…
Até que um dia, entrou na faculdade, conheceu o mundo infinitesimal e se enamorou, microfisicamente, de uma nanopartícula. Como as outras, essa também não durou. Ela habitava outra dimensão. Não poderiam se encontrar. Mudava sempre que era observada. Tinha uma inconstância quântica. Além do mais, ela estava em estreito relacionamento com outra partícula.. Tinha uma característica que, entre humanos, costumamos chamar de homoafetividade. Ficaram bons amigos. E só.
Enquanto isso, sua cegueira ia aumentando.
As lentes já não o ajudavam a enxergar. Na superfície de seus olhos iam se formando umas manchas acinzentadas, feito um fino bolor, espécie de névoa em vidraças…
Logo sobreveio a cegueira. Uma escuridão total se fez em sua alma.
No entanto, não ficou triste. Muito pelo contrário. Imaginou que a sua cegueira era uma noite sem estrelas e amou definitivamente essa sombra nos seus olhos. Deu-lhe um sugestivo nome:
Eflorescência…
Hoje vivem em conjunção carnal, colados um no outro, noite e dia, dia e noite, num harmonioso conúbio.
Eis, finalmente, o seu amor verdadeiro, eterno e feliz…

Um verdadeiro mergulho na lente do amor. Belbellita o fez despertar! Nossaaaa que cosamarlinda 👏🏾👁️
Eita, comadre. Obrigado!