Vermelho e quente! (um anti-manifesto)

Pelos corredores da Faculdade de Filosofia do Recife, os novos alunos da turma de Letras 1989.1, só comentavam as aulas do professor de Introdução à Filosofia, o jovem Aderval Farias. As moças, então, suspiravam. Mas, de tudo o que ouvi daquele moço, eu guardei na alma, uma frase, que aqui registrarei, mutatis mutandis:

“Sempre que vocês falarem, façam com que as palavras sejam vermelhas e quentes”

E é disso que se trata nesse anti-manifesto. Eu diria que um manifesto temporão. Mas nunca é tarde para tomar posição diante da vida.

Chegar à terceira, boa e… última, idade, nos traz algumas urgências. A minha é de ser intenso em cada coisa a ser feita. Afinal, não leva a nada condescender com as frivolidades, com a hipocrisia, com as futilidades nossas de cada dia; com essa política da boa vizinhança, essa diplomacia e essa pequena ética, ou seja, essa etiqueta, que nos faz aceitar fatos ou situações desnecessárias, na lida com pessoas e grupos. Todas essas leviandades hão de ter limites.

O momento é de luta. De enfrentamento, mesmo.

Não foi inútil o padecimento e morte de heróis da resistência ao autoritarismo. Não foi e nem devemos fazer parecer que foi.

Vejam a foto acima. Um jovem sacerdote católico é torturado e morto, num canavial da Várzea.

E o que fazia de mal, esse religioso?

Cuidava e apoiava aqueles que na época eram chamados de “toxicômanos”, dentro das universidades do Recife. Desarmado, sem preocupação com os grupos extremistas que já atuavam na cidade, o padre Henrique Pereira, foi sequestrado em Casa Forte e trazido, de madrugada, para ser perversamente torturado, por criminosos travestidos de policiais civis, e, depois, assassinado friamente. O grupo de assassinos frios era chamado, C. C. C., Comando de Caça aos Comunistas.

A minha, a tua, a nossa liberdade de pensar políticamente, se deve a mártires como o jovem padre Henrique.

E é por essas e outras que não deveríamos ter tempo para inventariar vaidades alheias. A morte nos ronda. Não é a mesma morte do padre. Mas é a mesma morte de emboscada. Agora, um novo agente invisível nos tocaia. Enquanto o pequeno tirano no poder, gargalha, com seus títeres fardados, um vírus assola a população mais pobre, os idosos, os indefesos das ruas e das favelas.

Como pensar em saraus? Em recitais melancólicos? De que nos valem as mostras, as lives, as performances?

Faz muito tempo que não há espaço para um lirismo em que não há libertação!

Convidam-me para homenagear um mestre aqui, outro acolá.

Não. Não posso! Não há mais tempo!

Pivetes fumam craque, sob o coreto da praça. Esquálidos e zonzos, buscam linimento para as suas angústias, suas dores, para a fome. Essa é uma cultura viva?

Meninas, chegam todos os dias, aos hospitais públicos, prenhes e sifilíticas. Quantas morrem no parto? Esse é um patrimônio público?

Eu não vou mais escrever por escrever. Nunca mais. Meu teclado há de ter um coquetel molotov a cada toque.

Sim, todos hão de morrer, como diz o presidente. Mas o que importa é o que se faz com essa vida que se vive.

A vida é luta renhida, viver é lutar! disse um poeta. A minha vida só faz sentido na luta.

Agora, estou me apartando de toda futilidade, de todo excessivo ego, de todas as vãs, vazias e supérfluas condecorações a líderes populares, que se sentam nos seus louros e ficam aguardando os nossos meneios de cabeça, como suseranos, em cadeiras de espaldar.

Vão à merda!

Não foi por isso que morreram jovens nos calabouços! Toda uma juventude se doou para termos essa frágil democracia…

Cuidemos desse legado, posto que foi comprado com sangue.

E não me convidem para adulações. Mesmo as merecidas!

Já não tenho tempo!

Respeitem os meus cabelos brancos!

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